Em março de 2026, o preço médio de memória DDR5 caiu 7,2%, marcando o primeiro recuo depois de seis meses consecutivos de alta. O índice de preços do padrão saiu de 440% para 408% em relação ao nível pré-crise. É pouco. Mas, num mercado que passou meses se comportando como uma bolsa de commodities enlouquecida, qualquer queda merece atenção.
Como chegamos até aqui
Desde outubro de 2025, o mercado de DDR5 entrou em colapso de oferta. Em questão de semanas, os preços explodiram em todas as regiões do mundo, com aumentos que chegaram a 3x e 4x dependendo do país e do perfil do kit. Um kit DDR5-6000 de 32 GB que custava menos de US$ 95 em meados de 2025 chegou a US$ 184 em outubro. Em dezembro, várias regiões já viam preços acima de US$ 400.
Kits DDR4 de 32 GB também não escaparam. Em outubro de 2025, era comum encontrá-los entre US$ 60 e US$ 90. Em janeiro de 2026, o mesmo kit já custava entre US$ 150 e US$ 180. O DDR4, que deveria ser o porto seguro dos builds mais baratos, virou armadilha.
O culpado? A demanda voraz por HBM dos hyperscalers, como Microsoft, Google, Meta e Amazon, forçou os três maiores fabricantes de memória, Samsung, SK Hynix e Micron, a redirecionar seu espaço limitado de produção para componentes enterprise de maior margem. É um jogo de soma zero: cada wafer alocado para um stack de HBM destinado a uma GPU da Nvidia é um wafer negado ao módulo de RAM de um notebook ou ao SSD de um PC gamer.
O que mudou em março
Rastreadores como o PCPartPicker registraram uma leve queda no preço médio de DDR5. A margem é mínima perto dos valores pré-crise, mas é o primeiro sinal positivo em meses. Embora US$ 400 por um kit DDR5-6000 de 32 GB ainda seja absurdo, a queda nos preços de varejo indica que o teto foi atingido e a demanda dos consumidores desacelerou o suficiente para forçar os varejistas a reduzir as etiquetas.
Dois fatores contribuíram para a mudança de cenário. Uma decisão judicial do juiz Richard Eaton, do Tribunal de Comércio Internacional dos EUA, determinou em 4 de março de 2026 que cada centavo dos US$ 130 bilhões a US$ 175 bilhões arrecadados em tarifas deve ser devolvido aos importadores. Isso representaria uma injeção significativa de caixa em empresas como Asus, Dell, Nvidia e HP. O CBP (U.S. Customs and Border Protection) está construindo uma ferramenta automatizada de reembolso em massa, prevista para estar pronta em meados de abril de 2026.
O outro fator vem da Proclamação Presidencial 11002, assinada em 14 de janeiro de 2026. Embora o destaque fosse uma tarifa de 25% sobre chips de IA de alto desempenho, a política criou uma brecha via Seção 232 que cobre “Aplicações Não-Data Center para Consumidores”, funcionando como um salvo-conduto para PCs gamer, laptops e consoles.
Por que os analistas ainda estão céticos
Os preços de RAM não vão cair em 2026. Gartner, IDC e TrendForce concordam com isso. A mudança estrutural para demanda impulsionada por IA alterou os fundamentos econômicos do mercado de DRAM.
O Gartner projetou em fevereiro de 2026 que os embarques globais de PCs cairão 10,4% e os de smartphones 8,4%, em comparação com 2025, impulsionados por uma alta estimada de 130% nos preços combinados de DRAM e SSD até o fim do ano. Isso deve levar a aumentos de 17% nos preços de PCs ano a ano, com o mercado de entrada sentindo o impacto mais intenso.
Os três maiores fabricantes de chips de memória, Micron, SK Hynix e Samsung, devem gastar US$ 54 bilhões em investimentos de capital, mas com foco em HBM para chips de IA. Apesar do crescimento de 14% nos investimentos no setor de DRAM, eles não vão aumentar a capacidade de produção disponível de chips para o consumidor. Isso significa que a escassez deve continuar bem adentro de 2027.
A leitura do mercado é direta: uma queda temporária é possível, mas uma redução sustentada nos preços em 2026 parece improvável. Os dados mostram um platô elevado, com preços estabilizados em níveis historicamente altos. Uma normalização mais significativa parece mais crível a partir de 2027, condicionada a um real reequilíbrio entre oferta e demanda.
O que o gamer deve fazer agora
A Counterpoint Research projeta uma queda de 5% nos embarques globais de PCs em 2026, impulsionada pelos preços crescentes de memória. O IDC é ainda mais pessimista, projetando uma queda de 11,3%, uma revisão drástica frente à queda de 2,4% que a empresa previa em novembro de 2025.
Analistas do Tom’s Guide recomendam esperar até agosto de 2026, caso haja essa opção. Até lá, ficará mais claro se os reembolsos tarifários acontecerão, se a isenção para consumidores se sustentará e, principalmente, se os fabricantes repassarão esses ganhos para o preço final.
Para quem não pode esperar, montar um PC com DDR4 continua sendo uma alternativa viável com boa relação desempenho por valor, especialmente para quem já tem memória de uma build anterior. A queda de março é real, mas comprar agora ainda significa pagar num patamar que seria impensável há seis meses. A decisão depende de quanto tempo você consegue segurar o gatilho.
